Conta-se que há alguns anos, existiu, num lugar muito distante, um homem que questionara o modo como Deus regia o mundo. “Como pode existir um Deus bom e misericordioso quando há tanta dor e sofrimento no mundo inteiro?” vivia a se perguntar. Não entendia a falta de amparo de um ser em quem a humanidade empregava tanta fé e devoção. Foi então que, certo dia, o homem, caminhando solitário sobre a trilha de um bosque, encontrou-se com Deus que foi logo lhe dizendo há muito planejar aquele encontro.
Deus, vendo sua inquietação, pediu-lhe que se acalmasse e informou-lhe estar ali com um grande propósito. “Venho entregar-lhe este lápis, que tem o poder da criação.” E continuou dizendo ao homem “Quero que crie um mundo completamente novo, da maneira como supor ser a correta. Quero também que encha esse novo mundo de vida e que nele você viva até que não suporte mais.”
O homem agradeceu a Deus por aquela tão preciosa dádiva e garantiu-Lhe que jamais cansaria de viver no mundo que criasse, pois, esse seria perfeito. Assim, Deus partiu, mas, antes, alertou o homem para que tomasse cuidado, pois, tudo a que desse vida conteria uma porção do lápis da criação e nada possui o poder de apagar seus rabiscos. O homem, então, começara seu grande trabalho.
No primeiro dia, criou a luz e separou-a da escuridão que até então pairava sobre o novo mundo; no segundo dia, o homem separou as águas em duas grandes porções com um firmamento que conheceu como céus; no terceiro dia, agrupou as águas em um mesmo lugar, preencheu o vazio com o que conhecia como terra e desenhou-a de maneira a produzir plantas, ervas e árvores frutíferas; no quarto dia, desenhou o sol, a lua e as estrelas para que o primeiro presidisse o dia e as outras presidissem a noite; no quinto dia, assustado com o silêncio, criou as aves para povoarem os céus e os peixes para viverem sob as águas, e tudo estava em harmonia; no sexto dia, criou os animais que andariam sobre a terra e, por último, mais homens e mulheres, para que reinassem sobre todas as outras coisas criadas. E criou-os já dotados da inteligência de seu tempo.
Assim, o homem deitou para descansar e contemplar tudo o que havia feito, mas foi despertado pelo barulho de construções em que os homens trabalhavam e da extração da madeira das grandes árvores que os homens exploravam. Espantou-se com a cor das águas outrora cristalinas e lamentou pela caça das espécies únicas de animais a que havia dado vida. Então, no sétimo dia, o homem chorou e pediu a Deus que o amparasse. E Deus surgiu de braços abertos para ensinar-lhe “Você teve a chance de construir um mundo perfeito e de fato o fez. Criou o céu, a terra e todo o seu exército e deu a cada ser uma porção do poder da criação. Então veio o homem e modificou tudo. E só assim você se lembrou da minha existência.”
O homem, envergonhado, concluíra o raciocínio “É por isso que existe tanta dor e sofrimento no mundo inteiro. A humanidade só permite que Deus interfira em suas criações quando seus mundos já desabaram.”
