quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A menina das sapatilhas vermelhas

Conta-se que há alguns anos, num distante povoado ao sul, nascera uma menina com um dom especial. A criança possuía a capacidade de transformar o meio em que se encontrava ao dançar. Mas, fazendo uso de seu incrível bom-senso, acreditou que o melhor a se fazer era esconder esse seu maravilhoso dom e guardou no coração seu sonho ardente de dançar.

Na escola, a menina se sobressaia sobre as demais crianças de sua idade e, muitas vezes, até mesmo dentre as mais velhas. Desse modo, dia após dia, seus pais e familiares foram criando expectativas sobre a menina. E tudo o que ela fazia era severamente julgado pelos olhos analíticos daqueles que a dançarina tanto amava. Ouvia elogios de professores, de seus colegas e até dos pais de seus colegas, mas jamais ouvira um elogio daqueles a quem mais a menina se esforçava para orgulhar. Pois, esses estavam cada dia mais exigentes com a menina que só pensava em dançar.

Chegando o dia de escolher uma profissão, seus pais não lhe deram oportunidade de se pronunciar e foram logo dizendo que sua filha seria uma doutora brilhante na medicina. Então, a menina protestou dizendo que seu grande sonho era colocar suas sapatilhas vermelhas e dançar. Seu pai, no entanto, conhecendo as qualidades da filha, disse-lhe que seria o cúmulo desperdiçá-las com a dança. Assim, mais uma vez a menina deixou que seu sonho escorresse garganta adentro para, numa hora mais propícia, ruminá-lo novamente. A garota que sabia dançar, então, passara anos estudando para causar orgulho nos pais. E o tempo fizera daquela menina, uma mulher que sonhava dançar.

Foi então, a caminho de sua formatura, que a tragédia lhe bateu à porta. Seu pai dirigia seu carro normalmente quando um ônibus se descontrolou na pista e bateu em cheio sobre a porta do veículo em que a mulher que sonhava dançar se escorava. Mas, para seu espanto, não teve um único arranhão. Já todos os outros familiares que se encontravam no carro tiveram uma morte súbita. Ao sair do que um dia fora um carro, a menina observou que o ônibus era de uma companhia de dança que estava fazendo uma turnê pela cidade.

Dias depois, a mulher, não vendo mais sentido na vida, resolveu pegar suas sapatilhas vermelhas e subir no terraço do prédio em que morava. Lá, a mulher dançou como sempre quisera. Girou, girou, girou como se o mundo parasse para que assim ela o fizesse. Os pássaros, vendo aqueles tristes movimentos solitários, começaram a se agrupar em torno da mulher que dançava como um anjo. Então, à beira do terraço, a mulher fechara seus olhos e caiu.

Os pássaros, entretanto, lançaram-se para debaixo da mulher antes que ela pudesse tocar o chão. Desse modo, todos eles morreram esmagados pelo peso da mulher, que mais uma vez saíra ilesa de um acidente. Era um milagre. Foi assim que a mulher conseguira a certeza que transformou sua vida: ao nascer, havia recebido um dom. E um dom nunca é desperdiçado. Seja na dança, na música, na escrita ou entre os números, a arte é tudo aquilo que se faz com prazer e parte do coração. Para aquilo a mulher havia nascido e enquanto ela não o fizesse, seria incapaz de morrer.