Dessa forma, os anos passaram-se... De cada alimento furtado da casa, o rato levava uma porção ao belo gato que, em troca, oferecia-lhe proteção. Era a parceria perfeita! E, com o passar do tempo, aquilo se transformara numa grande e concreta amizade. O rato já não levava alimento a seus irmãos que, há muito, mudaram-se dali. Mas, não deixara de alimentar o gato um único dia sequer e via-se dominado por aquele total sentimento de amizade que lhe tomava o peito. O ratinho, com toda a sua força, amava o gato.
O gato, contudo, jamais manifestara um intenso sentimento em relação a seu amigo. Que logo, logo se sentira incompleto. Sabia que, à sua maneira, o gato o amava. Mas o rato se doava tanto por aquela relação, que carecia de um maior companheirismo. Exigia mais lealdade daquele por quem largara tudo para seguir. Mas o bichano já estava acostumado com toda aquela fidelidade oriunda do ratinho e tornara-se insensível aos sentimentos do pequeno animal.
Assim, certo dia, o rato decidiu não mais trazer alimento a seu velho amigo. Todos os dias saia, comia e voltava para deitar-se próximo ao gato. Desejava que o gato sentisse aquela distância que os estava separando, pois já estava cansado de sustentar sozinho aquele imenso laço. E desejava que, nesse dia, o gato se arrependesse e procurasse saber sobre seus sinceros sentimentos. O gato, entretanto, ao sentir seu afastamento, não agiu como o rato esperava.
Já não vendo utilidade naquela amizade, o bichano lembrou-se daquele velho trato em que ambos se entregaram. O gato prometera-lhe proteção enquanto o rato lhe trouxesse uma pequena porção de cada alimento furtado. E se o rato já não lhe trazia alimento...
Foi assim, que certo dia, quando seus donos o observavam, que o gato chamou-lhes a atenção indo ao pequeno buraco na parede em que o rato se escondia. Dessa maneira, seus donos armaram ratoeiras e espalharam por toda a casa. A perfídia estava armada! O gato não percebera, porém, que enquanto mostrava a toca a seus donos, o ratinho, desiludido, observava-o.
Então o pequeno animalzinho decidiu por sair de uma vez daquela casa e, se preciso, voltar ao lixo e aos esgotos. Mas, quando estava saindo, sentiu uma imensa pancada em suas costas. E ao tentar correr, percebeu que suas pernas já não lhe obedeciam. Caído ali de lado, o ratinho avistou o gato se aproximando e recebendo um cafuné de recompensa de seu dono que carregava uma vassoura na mão.
Sentindo a respiração faltar-lhe e as vistas se turvando, o ratinho ainda pôde ver seu grande amigo aproximar-se. Olhando-o nos olhos, o rato lembrou-se do quanto havia doado sua vida e, sem vergonha nenhuma, amado intensamente aquele gato. Sentiu na boca, naquele momento, o gosto amargo da ingratidão. Então, ouviu suas próprias batidas cardíacas ficando mais fracas. Nesse momento, arrependeu-se de não levar comida ao gato, pois, mesmo que esse não fosse capaz de amá-lo na mesma proporção, era seu melhor amigo e desejava mais que tudo estar a seu lado. As pálpebras, por fim, pareceram-lhe pesadas. E, de olhos fechados, sentiu pela última vez o toque de seu tão amado amigo, arrependido. E assim, perdoou-lhe concluindo, em sua total inocência, que quem mais cede, é o que mais tem. E o perdão, é claro, é uma virtude dos sábios.
