– Pai Nosso que estais no céu...
– Diz isso como se esse Pai a quem você louva realmente estivesse no céu. – uma voz grave e altiva me interrompeu.
Sem entender de onde vinha aquela voz, fingi que não a estava ouvindo e tentei continuar minha oração.
– ...santificado seja o Vosso nome...
– Diz isso por que está na oração, ou você realmente deseja que seja assim até o final dos tempos?
– Por favor, não me interrompa – pedi ao anônimo oculto – Eu só quero terminar minha oração em paz!
– Seu Pai tem muitos nomes. Qual deles deve ser realmente santificado? Existem inúmeras formas de louvar Seu nome. E qual das crenças o faz corretamente? Se todos os nomes referem-se a um só Pai, por que tanta discórdia acerca disso? E a qual desses inúmeros nomes você ora?
Mais uma vez, tentei ignorar a voz...
– ...venha a nós, o Vosso Reino...
– Continua acreditando que Seu Pai resida num reino celeste? E que uma enorme distância os separa? A morada de Deus é o coração dos homens. Quando pede que Ele venha ao seu reino, onde quer realmente que Ele esteja?
– Dessa maneira não conseguirei terminar minha oração! Você quer, por favor, fazer silêncio para que eu possa concluí-la? – disse eu, já meio irritado.
– ...seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como no Céu...
– Seja sincero com Deus em suas orações! – ordenou a voz – Por que pede a ‘Vossa vontade’ se você mesmo não a pode realizar? Quando você pratica atos que te afastam de Seu Pai, está contrariando a ‘Vossa vontade’. Por que pede a Ele o que você na verdade não quer que se cumpra? Orar por orar e esperar daí alguma bênção que te salve, não te levará a lugar algum. Deus quer ouvir de sua boca o que realmente diz o seu coração.
– O que você sabe sobre a vontade de Deus?! – indaguei aos berros. Lembrei-me então que estava em uma Igreja e que não viera ali para me irritar, mas sim, para me confessar. – ...o pão nosso de cada dia, dá-nos hoje...
– Quando pede o pão, pede não só o pão, mas todos os bens materiais dos quais se julga necessitado. Como se seu conforto viesse de belíssimas mansões, carros do ano e fartos salários. O pão em que pensa ao orar, para você é um vasto banquete, enquanto há muitas pessoas passando fome e mesmo assim possuem mais desse ‘Pão’ do que você. Lembre-se sempre que Seu Pai é verbo! O pão que te dá a vida não é material. O pão da vida é a palavra de Deus! Só quando souber ouvi-La se sentirá realmente confortável. Tendo o seu ‘Pão’ de cada dia, tudo mais lhe será acrescentado!
Nesse momento, controlando-me para não me exaltar, fechei os olhos e resolvi terminar a oração com a voz do pensamento...
“...perdoai as nossas ofensas...” aguardei um minuto, contemplando o silencio da igreja, e continuei, ao perceber que não havia sido interrompido “...assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...”
– É mesmo capaz de perdoar todos aqueles que te ofendem de alguma maneira? – abri os olhos espantado, como podia aquela voz saber a momento exato em que eu havia acabado aquela frase da oração? – Como ousa pedir perdão a Deus pelos seus pecados, se você mesmo não consegue perdoar as agressões que te causam justa ou injustamente?
Ignorei completamente aquele estranho, e senti-me aliviado ao perceber que estava já nas últimas frases da oração...
– ... e não nos deixeis cair em tentações, mas, livrai-nos do mal...
– Assim como não há escuridão onde há a luz do sol, não há mal onde há Deus. Nenhuma tentação do mundo pode te fazer cair, se você sentir a presença de Deus. Seu Pai preenche, e onde Ele está, nada de mal há de ser temido.
Terminada a oração, levantei-me calmamente do assento, fiz o sinal da cruz e virei-me de costas ao altar, como se todo aquele momento eu estivesse ali desacompanhado e não houvesse escutado um único ruído.
– Há tantos anos não conversava comigo, que até mesmo esqueceu o som de minha voz? Até quando vai fingir que está desacompanhado?
Com isso, virei meu corpo novamente em sentido ao altar, ajoelhei-me ali mesmo no chão e, renovado, terminei corretamente minha oração, como nos velhos tempos...
– Amém!
