sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Espelho do Futuro

Conta-se que há alguns anos, um garoto nascera predestinado a ter êxito em tudo a que propusesse realizar. Tamanho sucesso, diziam seus amigos, devia-se a certo dom divino. No entanto, seu irmão acreditava que tudo o que lhe acontecia era obra de um espelho herdado de seu pai que produzia como reflexo o futuro de quem a sua frente se postasse. Assim sendo, seu irmão, a quem a vida sempre exigira mais, passou a invejar o espelho e todos os benefícios que ele proporcionava a seu único familiar.

“Se aquele espelho fosse meu”, pensava e dizia o irmão, “conseguiria tudo o que um homem pode desejar.”

O garoto, então, resolveu presentear seu irmão com o espelho, para provar-lhe que conhecer seu futuro não poderia lhe garantir vitórias incondicionais em suas ações.

Seu irmão, assim, frente ao espelho, focalizara na mente a mulher a quem dedicava seu amor. Viu seu reflexo correr no tempo e jogar tudo para o alto para ficar com sua amada, ao longo de uma vida prazerosa e cheia de amor. A certo ponto de sua vida, no entanto, percebeu pelo espelho que passaria grandes dificuldades financeiras e não daria a seus filhos e mulher tudo o que almejava oferecer-lhes. E viu, através dos olhos de seu próprio reflexo, a tristeza que aquilo lhe causava.

Descartando aquela previsão, mentalizou fortemente uma vida de trabalho e dedicação. Logo, viu no espelho o reflexo de seu possível futuro. Viu-se cheio de riquezas, carros do ano, trabalhos bem sucedidos e mulheres brigando para lhe fazer companhia. Deslumbrou-se com aquela visão. E, enquanto olhava, percebeu o egoísmo nos olhos de seu reflexo. A bebida já não lhe saciava, a comida já não lhe enchia e as mulheres já não o satisfaziam.

Infeliz com seu possível futuro, imaginou-se levando a vida sem grandes decisões. Viu-se, assim, como uma pessoa feliz com o pouco que tem. Mas, enquanto se olhava, percebeu o vazio nos olhos de seu próprio reflexo. Aquele seu possível futuro levava a vida de maneira irresponsável e não lutava por nada. Apenas deixava que a própria vida lhe trouxesse as oportunidades. Pelo reflexo, logo se via que não eram muitas e, as poucas, não as melhores.

Dessa forma, o irmão do verdadeiro dono do espelho lhe devolveu o artefato mágico e disse-lhe, que mesmo que o segredo para seu sucesso consistisse na previsão de seu futuro, ainda assim ele possuía um dom ímpar para corrigi-lo. O dono do espelho, naquele dia, revelou a seu irmão o que lhe garantia êxito em tudo o que colocava suas mãos. O mistério era o meio termo. E nunca se deixar levar por um vício.

“A sua vida”, disse ele, “será exatamente os efeitos de suas escolhas e atos. Todos temos, mais cedo ou mais tarde, aquilo que merecemos. Isso dá-me a segurança para tomar partido, e não um espelho que reflete o futuro. Pois o futuro, que só a Deus pertence, é, na realidade, nada mais do que as consequências de tudo o que eu faço.”

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A menina das sapatilhas vermelhas

Conta-se que há alguns anos, num distante povoado ao sul, nascera uma menina com um dom especial. A criança possuía a capacidade de transformar o meio em que se encontrava ao dançar. Mas, fazendo uso de seu incrível bom-senso, acreditou que o melhor a se fazer era esconder esse seu maravilhoso dom e guardou no coração seu sonho ardente de dançar.

Na escola, a menina se sobressaia sobre as demais crianças de sua idade e, muitas vezes, até mesmo dentre as mais velhas. Desse modo, dia após dia, seus pais e familiares foram criando expectativas sobre a menina. E tudo o que ela fazia era severamente julgado pelos olhos analíticos daqueles que a dançarina tanto amava. Ouvia elogios de professores, de seus colegas e até dos pais de seus colegas, mas jamais ouvira um elogio daqueles a quem mais a menina se esforçava para orgulhar. Pois, esses estavam cada dia mais exigentes com a menina que só pensava em dançar.

Chegando o dia de escolher uma profissão, seus pais não lhe deram oportunidade de se pronunciar e foram logo dizendo que sua filha seria uma doutora brilhante na medicina. Então, a menina protestou dizendo que seu grande sonho era colocar suas sapatilhas vermelhas e dançar. Seu pai, no entanto, conhecendo as qualidades da filha, disse-lhe que seria o cúmulo desperdiçá-las com a dança. Assim, mais uma vez a menina deixou que seu sonho escorresse garganta adentro para, numa hora mais propícia, ruminá-lo novamente. A garota que sabia dançar, então, passara anos estudando para causar orgulho nos pais. E o tempo fizera daquela menina, uma mulher que sonhava dançar.

Foi então, a caminho de sua formatura, que a tragédia lhe bateu à porta. Seu pai dirigia seu carro normalmente quando um ônibus se descontrolou na pista e bateu em cheio sobre a porta do veículo em que a mulher que sonhava dançar se escorava. Mas, para seu espanto, não teve um único arranhão. Já todos os outros familiares que se encontravam no carro tiveram uma morte súbita. Ao sair do que um dia fora um carro, a menina observou que o ônibus era de uma companhia de dança que estava fazendo uma turnê pela cidade.

Dias depois, a mulher, não vendo mais sentido na vida, resolveu pegar suas sapatilhas vermelhas e subir no terraço do prédio em que morava. Lá, a mulher dançou como sempre quisera. Girou, girou, girou como se o mundo parasse para que assim ela o fizesse. Os pássaros, vendo aqueles tristes movimentos solitários, começaram a se agrupar em torno da mulher que dançava como um anjo. Então, à beira do terraço, a mulher fechara seus olhos e caiu.

Os pássaros, entretanto, lançaram-se para debaixo da mulher antes que ela pudesse tocar o chão. Desse modo, todos eles morreram esmagados pelo peso da mulher, que mais uma vez saíra ilesa de um acidente. Era um milagre. Foi assim que a mulher conseguira a certeza que transformou sua vida: ao nascer, havia recebido um dom. E um dom nunca é desperdiçado. Seja na dança, na música, na escrita ou entre os números, a arte é tudo aquilo que se faz com prazer e parte do coração. Para aquilo a mulher havia nascido e enquanto ela não o fizesse, seria incapaz de morrer.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O caso do sol

Conta-se que há muitos anos, quando Sol presidia o reino espacial em completa harmonia, Lua, sua mais admirada estrela e súdita, conservava um desejo ardente de caminhar pelo mundo humano. Sendo assim, começou a rondar o planeta Terra à procura de amor verdadeiro. Encantava-se ao vê-lo nos olhos dos homens que dedicavam-se única e exclusivamente às suas mulheres e sentia-se envolvida por um calor descomunal que aquecia seu belo e apagado corpo noturno e, de tanta emoção, brilhava como nenhuma outra estrela seria capaz.

Certa vez, em um de seus passeios, Lua, apagada e solitária, observava dois amantes numa praia. Nesse momento, como em todos os outros dias em que observara o amor, exalou aquele forte e deslumbrante brilho. Foi então que conheceu a mais surpreendente criação daquele planeta: Mar. Apaixonou-se pela escuridão e o calor que pertenciam àquelas águas inesgotáveis e seu próprio brilho refletido naquele ser deixaram Lua perplexa. Assim, dia após dia, Lua voltaria para admirar e sentir a brisa levemente aquecida que subia de sua nova paixão.

Mar, dentro de sua própria grandeza, alimentara ao longo dos anos um espírito obsessivo e controlador. Vendo Lua enamorada por seus vastos encantos, decidiu corresponder a seu amor.

Anos e mais anos se passaram e Lua estava cada vez mais próxima ao Mar, até que Sol, seu rei, chamou-lhe de volta ao reino. Uma vez lá, escutou reclamações de Sol de que ela estava se afastando de seu povo. Dos planetas que tão amavelmente Sol aquecia, das constelações que tão sensatamente organizava e de suas próprias irmãs estrelas sobre as quais cuidadosamente Sol lançava seus raios.

Lua, ofendida por suas palavras, disse a Sol que ele sentia inveja de Mar, já que Lua empregava a ele tão grande amor. Acusou-o de ser insensível demais para perceber o amor que Mar colocava naquela leve brisa de calor que sempre chegava a Lua ao anoitecer.

Sol, magoado pelo que ouviu, deixou que Lua partisse novamente à Terra em busca de sua paixão.

Lua, contou a Mar do que seu rei a acusara. Assim, Mar aconselhou-a para jamais voltar ao reino do Sol. Diante ao calor daquela brisa que levemente a tocava, Lua concordou e, antes que percebesse, fora aprisionada por Mar à órbita da Terra.

Sol, então, resolveu revelar a Lua tudo o que escondera desde o início dos tempos. Para isso, ordenou às estrelas que levassem um recado a Lua. “Lua, não sou insensível para reconhecer um amor verdadeiro.” disseram “Ao contrário de Mar não o sinto quando recebo seu reflexo, mas o doou quando lhe lanço meus raios. Sempre que via os amantes, eu a iluminava com meus raios para que, naquele momento mágico, sentisse que em nosso reino o amor também é possível. E, desde quando conheceu Mar, a cada dia entreguei-lhe mais raios e calor para que, ao anoitecer, você pudesse sentir minha presença em cada canto da Galáxia em que se encontrasse. E seu corpo belo e noturno, eu o acendi com minha luz para que pudesse ver no reflexo das águas o quanto nos encaixamos. Mas, respeitá-la-ei se decidir viver ao redor do mar. E garanto-lhe que jamais deixarei de mandar meus raios a Mar, uma vez que conheço o fascínio que o efeito causa em você.”

Àquela altura, Lua já havia sido aprisionada por Mar e não pudera desculpar-se com Sol. Dizem, então, que até os dias de hoje Lua se arrepende de sua incapacidade de reconhecer a felicidade quando esta se encontrava a poucos passos. E pela necessidade de buscar tão longe aquilo que estava todo tempo a seu lado. Mas do que mais se arrependera foi de sua frieza em não conseguir captar um amor tão forte como os raios do Sol. Conta-se, também, que Sol, compreensivo, vive até hoje com o objetivo de brilhar com toda sua força apenas para que Lua, a cada anoitecer, sinta-se aquecida e possa ver seu próprio brilho refletido nas águas do Mar.