Conta-se que há muitos anos, quando Sol presidia o reino espacial em completa harmonia, Lua, sua mais admirada estrela e súdita, conservava um desejo ardente de caminhar pelo mundo humano. Sendo assim, começou a rondar o planeta Terra à procura de amor verdadeiro. Encantava-se ao vê-lo nos olhos dos homens que dedicavam-se única e exclusivamente às suas mulheres e sentia-se envolvida por um calor descomunal que aquecia seu belo e apagado corpo noturno e, de tanta emoção, brilhava como nenhuma outra estrela seria capaz.
Certa vez, em um de seus passeios, Lua, apagada e solitária, observava dois amantes numa praia. Nesse momento, como em todos os outros dias em que observara o amor, exalou aquele forte e deslumbrante brilho. Foi então que conheceu a mais surpreendente criação daquele planeta: Mar. Apaixonou-se pela escuridão e o calor que pertenciam àquelas águas inesgotáveis e seu próprio brilho refletido naquele ser deixaram Lua perplexa. Assim, dia após dia, Lua voltaria para admirar e sentir a brisa levemente aquecida que subia de sua nova paixão.
Mar, dentro de sua própria grandeza, alimentara ao longo dos anos um espírito obsessivo e controlador. Vendo Lua enamorada por seus vastos encantos, decidiu corresponder a seu amor.
Anos e mais anos se passaram e Lua estava cada vez mais próxima ao Mar, até que Sol, seu rei, chamou-lhe de volta ao reino. Uma vez lá, escutou reclamações de Sol de que ela estava se afastando de seu povo. Dos planetas que tão amavelmente Sol aquecia, das constelações que tão sensatamente organizava e de suas próprias irmãs estrelas sobre as quais cuidadosamente Sol lançava seus raios.
Lua, ofendida por suas palavras, disse a Sol que ele sentia inveja de Mar, já que Lua empregava a ele tão grande amor. Acusou-o de ser insensível demais para perceber o amor que Mar colocava naquela leve brisa de calor que sempre chegava a Lua ao anoitecer.
Sol, magoado pelo que ouviu, deixou que Lua partisse novamente à Terra em busca de sua paixão.
Lua, contou a Mar do que seu rei a acusara. Assim, Mar aconselhou-a para jamais voltar ao reino do Sol. Diante ao calor daquela brisa que levemente a tocava, Lua concordou e, antes que percebesse, fora aprisionada por Mar à órbita da Terra.
Sol, então, resolveu revelar a Lua tudo o que escondera desde o início dos tempos. Para isso, ordenou às estrelas que levassem um recado a Lua. “Lua, não sou insensível para reconhecer um amor verdadeiro.” disseram “Ao contrário de Mar não o sinto quando recebo seu reflexo, mas o doou quando lhe lanço meus raios. Sempre que via os amantes, eu a iluminava com meus raios para que, naquele momento mágico, sentisse que em nosso reino o amor também é possível. E, desde quando conheceu Mar, a cada dia entreguei-lhe mais raios e calor para que, ao anoitecer, você pudesse sentir minha presença em cada canto da Galáxia em que se encontrasse. E seu corpo belo e noturno, eu o acendi com minha luz para que pudesse ver no reflexo das águas o quanto nos encaixamos. Mas, respeitá-la-ei se decidir viver ao redor do mar. E garanto-lhe que jamais deixarei de mandar meus raios a Mar, uma vez que conheço o fascínio que o efeito causa em você.”
Àquela altura, Lua já havia sido aprisionada por Mar e não pudera desculpar-se com Sol. Dizem, então, que até os dias de hoje Lua se arrepende de sua incapacidade de reconhecer a felicidade quando esta se encontrava a poucos passos. E pela necessidade de buscar tão longe aquilo que estava todo tempo a seu lado. Mas do que mais se arrependera foi de sua frieza em não conseguir captar um amor tão forte como os raios do Sol. Conta-se, também, que Sol, compreensivo, vive até hoje com o objetivo de brilhar com toda sua força apenas para que Lua, a cada anoitecer, sinta-se aquecida e possa ver seu próprio brilho refletido nas águas do Mar.
San Thiago,
ResponderExcluiradorei seus contos, este em especial, é de muito bom gosto!
Bjos,
Josana