Existiu um povoado, há alguns anos, em que as pessoas se envolveram em sombras. Tudo, para seus cidadãos, há muito havia perdido a razão de ser. Não compreendiam o significado para suas vidas e, assim sendo, acreditavam não existir nenhum. Sendo a humanidade, em suas opiniões, desprezível ao mundo.
O prefeito do povoado tentara inúmeras vezes reviver sua população, mas, após incontáveis derrotas, acabou sentindo a mesma pena pesando-lhe sobre as costas.
Certo dia, então, uma garotinha oriunda de umas das famílias mais humildes do povoado pediu-lhe permissão para abrir uma venda na praça central.
– E quem é que vai se interessar a comprar-lhe seus produtos? – o prefeito indagou à garotinha – Há muito as pessoas a nada se interessam. Com o tempo, minha querida, você irá se habituar e aceitará o destino que nos foi entregue.
A garotinha, com a ideia fixa na cabeça, insistiu defendendo-se com qual argumento garantia ao prefeito o renascimento de seus cidadãos. Assim sendo, a permissão foi concedida por um mês para que a garotinha não sofresse tanto com a decepção.
No outro dia, a garotinha, com a ajuda de alguns amigos, montou uma modesta e empoeirada barraca na praça central do povoado. Em cima de seu balcão, colocara potes cheios de areia carregando cada qual seu dizer. Em uma cartolina velha e rasgada, pendurada a cuja lona esburacada servia-lhe como teto, escrevera a seguinte frase: “Compre já seu dom!”.
Aquilo despertou tamanha curiosidade aos habitantes do povoado que esses, após tantos anos de exclusão saindo de suas casas apenas para conseguir o essencial, resolveram ir até a barraca da garotinha e perguntar-lhe de que estava brincando.
– Jamais brincaria com coisa tão séria! – respondera-lhes ela – O que tenho aqui são frascos trazidos por viajantes que partiram de cidades longínquas. Cada qual possui sua essência ímpar que concede um dom a quem de mim comprá-lo e banhar-se com sua poeira.
Um homem, sentindo piedade pela criança esperançosa, comprou-lhe um frasco a que estava amarrada uma etiqueta com a palavra “Poeta”. Mais tarde, após lembrar-se, através do frasco, o quanto as poesias haviam lhe interessado ao longo de sua vida, pegara pena e papel e escreveu as mais lindas poesias de que era capaz.
No dia seguinte, comunicou a veracidade das palavras daquela sábia garotinha e aconselhou todos os moradores do povoado a comprarem-lhe um dom. Dessa maneira, a garotinha recebera cada vez mais clientes. Ao final do mês, a garotinha havia faturado uma boa quantia e o povoado havia de fato se transformado.
O prefeito, a par das ações da menina, fora agradecer-lhe, mas, ao mesmo tempo, chamar-lhe a atenção por ter enganado todos os habitantes do povoado com simples amostras de areia. A menina, então, defendera-se usando de toda sua sinceridade:
– Prefeito, venho de família pobre e o que aprendi com a atitude dos homens e mulheres do povoado, é que para o pobre se dar bem na vida precisa ser extremamente criativo e jamais esquecer-se do que o torna diferente de todas as outras pessoas. Enquanto isso, os ricos, sendo o coração e o cérebro do povoado e tendo toda a educação que os é proporcionada, esquecem-se de seus dons. Pois, mais cedo ou mais tarde, deixam de lutar por aquilo que almejam, por ser fácil demais comprar todas as suas necessidades.
– Ainda assim, cara menina – censurou-lhe o prefeito – suas ações não foram justificadas! Você vendeu areia para os cidadãos dizendo ser dons que eles apenas não se lembravam de possuir.
– Prefeito, com todo respeito, pense bem na educação que nos é dada! – retrucara-lhe referindo-se às crianças – O poeta, o que fará de seu dom? Venderá suas poesias pelo preço que julgar justo! E o palhaço, que fará? Cobrará ingresso para cada sorriso proporcionado! O músico, consegue me dizer? Ah! Sim! Eu mesma o faço: colocará em liquidação todas suas músicas raras! Aprendi que, no mundo em que vivemos, todos nossos dons são permutados a cédulas e cifrões. E um talento, querido prefeito, é caro demais para não ser provado em papel moeda.

