Conta-se que, não muito distante, na prateleira de uma loja de artesanatos, vivia uma comunidade de bonecas feitas da mais pura cera. Todas idênticas umas às outras. Consideravam-se todas perfeitas. Sintetizadas da mais pura cera que conheciam. Mas, existia dentre elas uma boneca que se sentia completamente deslocada. Pois, ao contrário das outras, acreditava numa existência bem superior àquela única prateleira. E ansiava pelo dia em que, tirada dali, pudesse conhecer outro mundo de criaturas de cera ainda mais perfeita.
Havia, no entanto, um pouco acima, outra prateleira. Essa, cheia de soldados feitos do mais bruto chumbo. Todos idênticos uns aos outros. Todos aqueles duros soldados criticavam a existência fútil das bonecas, tão delicadas, de cera. Um em especial, porém, em quem fora posta uma dose maior de curiosidade na fabricação, resolveu analisar mais de perto todas aquelas curiosas bonecas e, assim, fora visitar sua prateleira. Lá, espantou-se com a igualdade daquelas bonecas.
Afastada das outras, aquela boneca que se sentia deslocada, ao ver a estranha criatura se aproximando, partira a indagar-lhe de que cera era ele produzido. O soldado, que, em meio a todos seus irmãos, jamais ouvira voz tão doce como aquela, apaixonou-se instantaneamente pela boneca que, para ele, pareceu diferente de todas as outras. Explicou-lhe que havia, um pouco acima, uma prateleira cheia de soldados de chumbo, como ele. A boneca, que sempre ouvira sons delicados partindo da boca de suas irmãs, apaixonou-se instantaneamente pelo soldado.
– Como, de mãos calejadas de um artesão viciado em sintetizar o mesmo modelo de bonecas, – perguntara-lhe o soldado – pudera nascer uma boneca tão diferente de todas as outras?
E, antes mesmo que ela pudesse responder, convidou-lhe para conhecer seu mundo, isto é, sua própria prateleira. A boneca aceitara o convite e, lá chegando, espantou-se com a igualdade de todos os soldados de chumbo.
– Como, de mãos cansadas de um velho artesão viciado em produzir soldados do mesmo modelo, – perguntara-lhe a boneca – pudera nascer um soldado tão diferente de todos os outros?
Acontece que, certo dia, o artesão apareceu dizendo que novos exemplares estavam para ser produzidos e que os antigos produtos seriam derretidos na estufa para que seus materiais fossem reaproveitados.
O soldado, não entendendo muito bem a que material o artesão se referia, fez uma promessa a sua boneca: “Ainda que novas bonecas chegassem, ele jamais a trocaria. Pois sua beleza não era a mesma beleza que poderia ser conferida em qualquer outra boneca. Era especial pela cera que fora colocada em seu interior. A mais bela e pura!”
A boneca, por sua vez, prometeu-lhe exatamente o mesmo, pois acreditava que sua diferença estava exatamente no chumbo de que fora feito seu coração.
Um dia, da prateleira dos soldados de chumbo, o soldado ouviu o artesão dizer que derreteria todas as bonecas na estufa. Desesperado, partiu em direção à prateleira das bonecas para resgatar sua amada. Lá chegando, não avistou nada além de poeira. Triste, o soldado partiu por conta própria à estufa, abriu-a e penetrou-a. Durante aqueles poucos segundos que se sucederam, o soldado pensou na breve e intensa vida que havia levado desde quando conhecera a boneca amada até que, por fim, derreteu-se completamente.
A boneca, que da sua prateleira também havia ouvido o artesão falar sobre derreter todas as bonecas, partira em busca de esconderijo nos braços de seu adorado soldado. No entanto, soube pelos seus irmãos, que o soldado de chumbo havia partido para a estufa para esquecer o amor perdido.
Dessa maneira, a boneca seguiu à estufa para salvar a vida de seu amado soldado. Uma vez frente à guilhotina de bonecos, ela avistou todas suas irmãs derretidas em frascos separados. Cada uma apresentava uma cor. Assim, compreendera que, apesar de parecerem todos iguais, não poderia dizer que as bonecas de cera e os soldados de chumbo o eram, pois, não sabia ao certo como o interior de cada um havia sido fabricado.
Pela única vez em toda sua breve vida, a boneca não se sentiu deslocada, pois entendeu que, mesmo sendo todas as criaturas do mundo feitas da mesma cera ou chumbo, cada um possui sua individualidade. Além disso, entendeu que não se deve subestimar o próximo, acreditando ser os pensamentos dele inferiores aos seus, pois, cada um é especial à sua maneira. E essa especialidade, não pode ser vista pelos olhos, se assim o coração não permitir.
A boneca, ao abrir a estufa, avistou seu soldado derretido e, assim como ele anteriormente fizera, fechou a porta e viu sua curta e intensa vida passar ante seus olhos. Conta-se, assim, que a boneca e o soldado uniram-se numa combinação perfeita de cera e chumbo. Com a certeza de que, para viver em união, é preciso sacrificar-se e doar ao outro o melhor de si. Os soldados, conhecendo toda a história dos dois amantes, e avistando a singularidade de cada boneca derretida em seu frasco, passaram a respeitar a raça dos indivíduos de cera com uma grande certeza: quem vê cara não vê coração.

AI!!
ResponderExcluirQue medooooooooooooooo