terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Circo das Ideias Soltas



Era uma vez, um homem muito egoísta que reinava sobre um distante povoado. Fora acostumado a ter tudo na hora e da maneira que ele quisesse. Seu ouro comprava tudo, até mesmo as ideias mais brilhantes de seus súditos. Para ele, todos eram ignorantes. Apenas as suas vontades valiam a pena e somente suas opiniões contavam para o bem de todo seu reino. Dessa maneira, quem se opunha a suas ideias era teimoso, e não sabia conviver em harmonia com a sociedade sobre a qual reinava.
Certo dia, vindo de terras longínquas, apareceu em seu palácio um simples homem, dizendo ser dono de um maravilhoso circo e convidando o rei a estar presente em sua apresentação de estreia. O circo, dizia o homem, era mágico. O rei declarou que não havia magia na terra dos homens e, assim, considerou o dono do circo um dos mais puros ignorantes. No entanto, o homem circense era um homem sábio devido aos vários livros que já havia lido e aos lugares que já havia visitado. Descobriu, ao longo da vida, mistérios do mundo e aprendeu a respeitar o desconhecido e a pensar da perspectiva alheia. O que, para o rei, era simplesmente impossível.
No dia da apresentação, contudo, o rei fora ao circo, nomeado O Circo das Ideias Soltas, para mostrar a todos seus súditos que não estava enganado e que aquilo de magia era pura invenção de uma mente ignorante e sem escrúpulos para arranjar público. Na bilheteria, perguntaram então ao rei se ele realmente desejava entrar. Informaram-lhe que precisava pagar apenas uma moeda pelos seus pensamentos, mas, que para sair, era preciso pagar um preço alto. O rei, esnobe, afirmara com toda convicção que não existia preço que seu ouro não pudesse pagar e, assim, entrou.
Uma vez lá dentro, o rei impressionara-se com a singularidade daquele ambiente. O circo produzia, de alguma forma, grandes ilusões. Tudo em que se pensava saia voando por entre as paredes de lona do circo. Viu, então, quanto sofrimento infligia a seus súditos, por reprimir suas opiniões. Mas, o rei não viera ali para isso! O rei não precisava saber o que as pessoas pensavam a seu respeito! O rei era perfeito! E só ele conhecia a verdade sobre todas as coisas, pois só ele podia comprá-las. Sentindo-se ofendido, resolveu voltar a seu palácio. Para sair pela porta mágica de O Circo das ideias Soltas, no entanto, informou-lhe o dono do circo, seria preciso ter humildade e compreender o que levava cada uma daquelas pessoas a soltarem aquele tipo de pensamento. O rei, incapaz de analisar a situação da perspectiva de outra pessoa, ficara envolto em suas próprias ideias e não pudera sair.
Conta-se que gastou uma vida inteira para descobrir que um reino não se faz de Eu, mas sim, de Nós! Quando saiu do circo, os tempos já eram outros, em que as pessoas estavam bem mais felizes. Entendeu, com muito custo, que a ignorância não consistia em não aceitar suas ideias, e sim, em não conhecê-las. Ser marcante e ter opinião forte, é ter personalidade, aprendeu. Mas, não conseguir entender os sentimentos e pensamentos de outras pessoas é ser egoísta. Concluiu, além disso, que não se deve julgar a sabedoria de uma pessoa, nem mesmo pelas suas atitudes, pois, não se sabe ao certo baseadas em quais pensamentos elas foram tomadas, isto é, a não ser que você esteja dentro de O Circo das Ideias Soltas.

domingo, 1 de agosto de 2010

A ninfa e o jardineiro



 Era uma vez, um jardim encantado... Nele, vivia uma bela ninfa de lindos cabelos longos, pele branca e macia e cheiro de maracujá que passava os dias a cuidar de rosas de todas as cores. Estas, por sua vez, devido ao toque angelical daquela que as cultivava, tornaram-se o coração do jardim e, desse modo, o da própria ninfa.
A ninfa era uma criatura femininamente linda, no entanto, não conhecia o mundo além de seu próprio jardim, sendo assim, ingênua e pueril. Tamanha inocência fez com que a ninfa admirasse as pétalas e os perfumes oriundos das rosas sem nunca temer seus espinhos. E assim cresceu, até que, certo dia, vindo de terras longínquas, apareceu, em seu jardim encantado, um jardineiro.
O jardineiro era masculinamente duro, mas, ao ver a criatura perfeita residindo naquele jardim, apaixonou-se instantaneamente. Entretanto, com toda a malícia que alimentara dentro de si, ao longo dos anos, não sabia como lidar com aquele sentimento tão nobre que acabara de descobrir em seu peito fechado. A princípio, para impressionar a ninfa, o jardineiro esculpiu, nas árvores, lindas rosas e corações. A ninfa, então, encantada com seus dons, apaixonou-se pelo jardineiro e, a ele, e somente a ele, confiou suas lindas rosas.
As flores proporcionaram momentos de intensa felicidade ao jardineiro. Contudo, aquele homem não sabia se envolver com nada em que só havia bondade e não acreditava que aquelas cores e perfumes só o beneficiavam. Imaginava ter sido enfeitiçado pela bela ninfa e, confundindo a segurança daquele sentimento com uma prisão, resolveu fugir, amedrontado.
As rosas da ninfa já haviam se entrelaçado pelo corpo do jardineiro, tão amado. Assim, para sair dali e ir embora para sua terra, o homem pegara sua tesoura e começou a cortar os pés de rosas, enquanto a ninfa, desiludida e sem entender, chorava e pedia para que seu amor ficasse. Convicto de que tomava a atitude certa, o jardineiro partiu e, por um bom tempo, não se lembrara do jardim encantado.
Longos anos se passaram e, em sua terra, esculpiu novas árvores, cultivara outros jardins e conheceu diversos tipos de rosas. E todo aquele conhecimento, fez do jardineiro um homem mais amável. Conseguiu, por fim, entender que existe inocência na natureza, assim como maldade. E divergiu uma coisa da outra. Foi assim, que certo dia, lembrou-se do jardim encantado: a única perfeição verdadeira que acreditava ter conhecido em sua vida. A partir daí, tornou-se incapaz de tirar da cabeça a imagem daquela ninfa e, quando desta ela se fez ausente, fez presença no coração. E o jardineiro, arrependido, sentiu saudades... Saudades dos lindos cabelos longos, da pele branca e macia e do seu cheiro de maracujá... Saudades do seu jardim encantado, das cores e perfumes daquele lugar e, por fim, de todas as rosas que ali se encontravam.
Depois de tudo, então, o jardineiro voltou para o jardim encantado. Uma vez lá, encontrou tudo diferente... As rosas não eram as mesmas, os odores eram outros e as cores já não tão intensas. Procurando, o jardineiro encontrou a ninfa escondida atrás de rosas murchas que ele mesmo havia empilhado ao fugir. A ninfa então lhe explicou que, ao longo daqueles anos, tentara trazer outros jardineiros para seu jardim, mas que, assim como ele mesmo fizera, todos os outros despedaçaram suas rosas.
Conta-se, então, que o homem orou e pediu para que a ninfa não se fechasse à bondade, assim como ele fizera tanto tempo. Desejou que ela voltasse atrás e desse-lhe mais uma chance, pois só agora ele sabia tomar as atitudes necessárias para fazê-la feliz. Concluiu, finalmente, que não se deve brincar com as rosas de uma ninfa, uma vez que todo corte de sua tesoura ou arranhão dos espinhos nas flores existentes deixa cicatrizes.
Não se sabe ao certo, conta-se, se a ninfa foi capaz de cultivar novamente seu coração ou se passara o resto de sua vida mais temendo os espinhos que admirando a beleza de suas rosas.