Era uma vez, um homem muito egoísta que reinava sobre um distante povoado. Fora acostumado a ter tudo na hora e da maneira que ele quisesse. Seu ouro comprava tudo, até mesmo as ideias mais brilhantes de seus súditos. Para ele, todos eram ignorantes. Apenas as suas vontades valiam a pena e somente suas opiniões contavam para o bem de todo seu reino. Dessa maneira, quem se opunha a suas ideias era teimoso, e não sabia conviver em harmonia com a sociedade sobre a qual reinava.
Certo dia, vindo de terras longínquas, apareceu em seu palácio um simples homem, dizendo ser dono de um maravilhoso circo e convidando o rei a estar presente em sua apresentação de estreia. O circo, dizia o homem, era mágico. O rei declarou que não havia magia na terra dos homens e, assim, considerou o dono do circo um dos mais puros ignorantes. No entanto, o homem circense era um homem sábio devido aos vários livros que já havia lido e aos lugares que já havia visitado. Descobriu, ao longo da vida, mistérios do mundo e aprendeu a respeitar o desconhecido e a pensar da perspectiva alheia. O que, para o rei, era simplesmente impossível.
No dia da apresentação, contudo, o rei fora ao circo, nomeado O Circo das Ideias Soltas, para mostrar a todos seus súditos que não estava enganado e que aquilo de magia era pura invenção de uma mente ignorante e sem escrúpulos para arranjar público. Na bilheteria, perguntaram então ao rei se ele realmente desejava entrar. Informaram-lhe que precisava pagar apenas uma moeda pelos seus pensamentos, mas, que para sair, era preciso pagar um preço alto. O rei, esnobe, afirmara com toda convicção que não existia preço que seu ouro não pudesse pagar e, assim, entrou.
Uma vez lá dentro, o rei impressionara-se com a singularidade daquele ambiente. O circo produzia, de alguma forma, grandes ilusões. Tudo em que se pensava saia voando por entre as paredes de lona do circo. Viu, então, quanto sofrimento infligia a seus súditos, por reprimir suas opiniões. Mas, o rei não viera ali para isso! O rei não precisava saber o que as pessoas pensavam a seu respeito! O rei era perfeito! E só ele conhecia a verdade sobre todas as coisas, pois só ele podia comprá-las. Sentindo-se ofendido, resolveu voltar a seu palácio. Para sair pela porta mágica de O Circo das ideias Soltas, no entanto, informou-lhe o dono do circo, seria preciso ter humildade e compreender o que levava cada uma daquelas pessoas a soltarem aquele tipo de pensamento. O rei, incapaz de analisar a situação da perspectiva de outra pessoa, ficara envolto em suas próprias ideias e não pudera sair.
Conta-se que gastou uma vida inteira para descobrir que um reino não se faz de Eu, mas sim, de Nós! Quando saiu do circo, os tempos já eram outros, em que as pessoas estavam bem mais felizes. Entendeu, com muito custo, que a ignorância não consistia em não aceitar suas ideias, e sim, em não conhecê-las. Ser marcante e ter opinião forte, é ter personalidade, aprendeu. Mas, não conseguir entender os sentimentos e pensamentos de outras pessoas é ser egoísta. Concluiu, além disso, que não se deve julgar a sabedoria de uma pessoa, nem mesmo pelas suas atitudes, pois, não se sabe ao certo baseadas em quais pensamentos elas foram tomadas, isto é, a não ser que você esteja dentro de O Circo das Ideias Soltas.

